Clarice

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Sempre fui a favor do aborto, não por uma questão feminista, mas por acreditar que o livre arbítrio existe para que cada um seja dono de suas próprias escolhas.
Tive um "casinho" com um cara do meu trabalho. Ficamos algumas vezes e na última vez acabamos indo para um motel.
Eu não tomo anticoncepcional há algum tempo e não usamos camisinha na hora da empolgação, o que me fez tomar a pílula do dia seguinte em questão de horas depois da última relação.
Jamais achei que engravidaria, mas quase 1 mês depois eu já notava que estava frequentemente enjoada, com dor nos seios e me sentindo cansada pra caramba. Fui ao hospital e passei direto com um ginecologista e obstreta porque a menstruação estava atrasada. Fiz exame de urina e estava completamente tranquila, até que o resultado foi positivo para gravidez e o meu mundo desabou.
Confiei na eficácia da pílula do dia seguinte, que foi um grande erro. Não ter usado camisinha e não tomar anticoncepcional foi outro.
Enfim, nunca tive o desejo de ser mãe, ainda mais nas circunstâncias atuais: sou solteira, não tinha um relacionamento estável com o cara (o qual mostrou-se um grande babaca depois, deixando claro que queria apenas sexo e nada mais) e estou em um momento importante da minha carreira, com projetos grandes que tomam muito o meu tempo e energia.
Nunca tive dúvidas de que precisava fazer um aborto, mesmo sabendo que aqui no Brasil é crime e que a grande maioria das pessoas não são capazes de entender uma mulher que não deseja ser mãe e prefere interromper a gravidez.
Apenas minha mãe, minha irmã, meu terapeuta, minha melhor amiga e um amigo souberam. Minha mãe e minha irmã deixaram claro que não concordavam, mas respeitaram a minha decisão. Inclusive, minha irmã que me ajudou a encontrar o Cytotec, o qual eu achei somente depois de levar um golpe (comprei com um cara na internet que nunca me mandou o medicamento). Depois, minha irmã achou o contato de uma mulher pelo facebook e aí encontramos com ela para buscar. Gastei uma boa grana com isso e acho uma pena que no Brasil tenha que ser assim. Senti na pele a angústia de ter que lidar com um acontecimento que você não quer e que tentou evitar, mas isso durou poucos dias.
Tomei primeiro 4 comprimidos e depois de 2 horas tomei mais 2, estava de 7 semanas, quase 8. Todos foram tomados de forma sublingual. Em questão de 1 hora e meia depois da primeira dose, já tive sangramento.
Senti muita dor, tive contração, muita cólica e um pouco de febre, mas foi suportável. O cara não sabe até hoje que eu fiquei grávida e muito menos que abortei, mas sei que se soubesse, apoiaria o aborto. A questão é que eu não precisava de absolutamente nada dele e seria igual se decidisse ter o filho.
Enfim, 1 semana depois eu fui ao médico e disse que estava com sangramento. Fiz exame e foi considerado que eu tive um aborto espontâneo.
O que eu falo para quem está nessa situação é que não está sozinha. Não importa o que a maioria pense ou fale, o corpo é seu, é sua vida, sua decisão. Um filho não é brincadeira, é uma responsabilidade para a vida toda. Acho que crime é levar adiante uma gestação sem ter vontade e sem sentir amor pela criança. Se for para ser assim, acho mesmo que o aborto é totalmente válido, porque nada pode ser pior que ser indesejado pela própria mãe.
Outra coisa, quanto menos pessoas souberem, melhor. Porém, é fundamental que você tenha pelo menos alguém com quem possa contar, porque apoio ajuda e muito nesse momento delicado.
Se houvesse uma forma segura de eu passar meu contato para ajudar as mulheres que passam por isso, eu não pensaria duas vezes porque sei o quanto é angustiante.
Enfim, faz menos de 2 semanas que realizei o aborto e não me arrependo, mesmo ouvindo da minha própria mãe que "isso é horrível, você é cruel, não sei como não sente remorso", entre outros tantos julgamentos. Minha resposta é sempre a mesma: fiz o que era melhor para mim. Meu corpo, minha vida.
Força para vocês e não se esqueçam: você não está sozinha.

2015 Brazil

No começo eu senti culpa e cheguei a ter a sensação de que eu era uma criminosa, um monstro. Depois entendi que esses sentimentos não são meus e sim de uma sociedade machista e moralista, com a qual eu não me identifico.

Mais tranquila do que eu pensava. Os sintomas foram suportáveis e o método foi eficaz.

Nunca senti vontade de ser mãe.

Ngaba ukungabikho mthethweni kokuqhomfa kwakho kuchaphazele iimvakalelo zakho?

Sim. É horrível fazer algo que você considera normal enquanto o resto do mundo enxerga como um crime.

Benze ntoni abanye abantu xa ukhupha isisu?

Poucas souberam e a maioria foi contra.

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